Historia por siglos

Século XVI

 

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Ao contrário da América Espanhola, o Brasil do século XVI não apresentou grandes riquezas sob a forma de metais preciosos, que só foram descobertos no final do século XVII. Na falta dos metais, foi o açúcar que tornou viável, em termos econômicos, os primeiros passos da colonização.

 

Se a terra era um fator abundante, o mesmo não acontecia com a mão-de-obra e com os equipamentos necessários à montagem de engenhos, que exigiam grandes investimentos de capitais. Os elementos das classes trabalhadoras européias, libertos da servidão medieval, não queriam imigrar para a América como simples trabalhadores agrícolas e aqui se defrontarem com a penosa tarefa de desbravar a mata tropical, enfrentar índios e um meio hostil. A mão-de-obra européia assalariada era muito cara para ser empregada em grande escala nas plantations do Novo Mundo.

 

A primeira solução para o problema da mão-de-obra foi a escravização dos indígenas, que apresentou muitas dificuldades. Em virtude do tipo de civilização em que se encontrava, o índio brasileiro, ligado à caça, à pesca e à coleta, tinha dificuldades de adaptação ao trabalho agrícola escravo. Além disso, a Igreja Católica, desde o início da colonização, desenvolveu uma política de cristianização, proteção e controle dos indígenas, lutando contra sua escravização pelos colonos.

 

O problema da mão-de-obra, no Brasil e na América em geral, deu ensejo ao desenvolvimento de um dos mais lucrativos negócios da história, que foi a escravidão negra. Negros aprisionados na África passaram a ser mercadoria importante para a atividade comercial e a servir como força produtora, primeiro na própria Europa, nas ilhas do Atlântico e depois na América colonial.

 

Para ter o africano como escravo, era necessário suprimir-lhe a cultura – a alma – transformando-o em bicho ou coisa. Suprimiam-lhe o nome tribal, impondo-lhe outro, português; proibiam-lhe a religião ancestral, forçando-o a aceitar a de Cristo. Como isso não bastasse, os brancos escravistas completavam o serviço com a pancadaria, a chibata, o açoite.

 

A pauleira começava desde o momento em que o negro era capturado ou comprado ao soba (os sobas eram chefes tribais que, com a chegada dos europeus à África, a partir do século XV, começaram a capturar escravos negros para trocar com os traficantes brancos por bebidas, armas, panos e enfeites). Os escravos negros apanhavam durante a longa viagem até o litoral; apanhavam no depósito mantido pelos agentes (pombeiros ou tangomaos, como se chamavam); apanhavam no convés do navio, durante a travessia do Atlântico (que durava cerca de três meses); apanhavam no mercado, à espera dos fazendeiros compradores; e continuavam apanhando durante toda a existência de escravos.

 

“Não lhe batiam por maldade, embora isso também ocorresse. A finalidade era esvaziá-lo da parte propriamente humana que todos os homens possuem – e são homens propriamente porque a possuem. Assim coisificado, o negro africano estava pronto para ser escravo.” (Joel Rufino dos Santos – Zumbi, ed. Moderna, 1985)

 

 

1548:

 

Começam a ser desembarcados no Brasil os escravos negros, vindos principalmente dos portos de São Paulo de Luanda, em Angola, e Benguela.

 

Os escravos negros começaram a ser desembarcados no Brasil por volta de 1548 e, nos três séculos seguintes, seriam predominantemente do tronco lingüístico banto, do qual faz parte a língua quimbundo. Esse grupo englobava angolas, benguelas, moçambiques, cabindas e congos. Eram povos de pequenos reinos, com um razoável domínio de técnicas agrícolas; possuíam uma visão muito plástica e imaginosa da vida, e demonstraram ter grande capacidade de adaptação cultural.

 

Não há indicações seguras de que a capoeira se tenha desenvolvido em qualquer outra parte do mundo além do Brasil. “A tendência dos historiadores e africanistas, tomando como base poucos e raros documentos conhecidos, é se fixarem como sendo de Angola os primeiros negros aqui chegados, tendo a grande maioria de nossos escravos escoado dos portos de São Paulo de Luanda e Benguela. Ao lado disso, a gente do povo e sobretudo os capoeiras falam todo o tempo em capoeira Angola, especialmente quando querem distingui-la da capoeira Regional. Ora, tudo isso seria um pressuposto para se dizer que a capoeira veio de Angola, trazida pelos negros de Angola. Mas, mesmo que se tivesse notícia concreta da existência de tal folguedo por aquelas bandas, ainda não seria argumento suficiente. Está documentado e sabido por todos que os africanos uma vez livres e os que retornaram às suas pátrias levaram muita coisa do Brasil, coisas não só inventadas por eles aqui, como assimiladas do índio e do português. Portanto, não se pode ser dogmático na gênese das coisas em que é constatada a presença africana; pelo contrário, deve-se andar com bastante cautela.” (Waldeloir Rego – Capoeira Angola)

 

 

1577:

 

Primeiro registro do vocábulo Capoeira na língua portuguesa: Pe.Padre Fernão Cardim (SJ), na obra: “Do Clima e da Terra do Brasil”. Conotação: vegetação secundária, roça abandonada.

 

 

1597:

 

“Numa noite qualquer do ano de 1597, quarenta escravos fugiram de um engenho no sul de Pernambuco. Fato corriqueiro. Escravos fugiam o tempo todo de todos os engenhos. O número é que parecia excessivo: quarenta de uma vez. Fora também insólito o que fizeram antes de optar pela fuga coletiva: armados de foices, chuços e cacetes haviam massacrado a população livre da fazenda. Já não poderiam se esconder nos matos e brenhas da vizinhança – seriam caçados furiosamente até que, um por um, tivessem o destino dos amos e feitores que haviam justiçado.

 

De manhã, certamente, a notícia correria a Zona da Mata – essa formidável galeria verde que, salpicada de canaviais, a uns dez quilômetros do mar, o acompanha sem nunca perdê-lo de vista. Tinham a liberdade e uma noite para agir.

 

Havia umas poucas mulheres, um que outro velho e diversas crianças, mas o grosso eram pretos fortes, canelas finas e magníficos dentes. Escolheram caminhar na direção do sol poente, um pouco para baixo. Com duas horas compreenderam que jamais qualquer deles havia ido tão longe naquela terra. Mesmo os crioulos, nascidos aqui, desconheciam o pio daquelas aves, nunca tinham visto aqueles cipós. Andaram toda a noite e a manhã seguinte; descansaram quando o sol chegava a pino; contornaram brejos e grotões, subiram penhascos e caminharam, um a um, na beirada de feios precipícios.

 

Se passou ainda uma noite. Eram observados, mas não tinham qualquer medo de índios. Então, na vigésima manhã se sentiram seguros. De onde estavam podiam ver perfeitamente quem viesse dos quatro cantos; com boa vista se podia mesmo vislumbrar o mar, além das lagoas. A terra, vermelho-escura, esboroava ao aperto da mão. Ouviam águas correndo sobre pedras. E havia palmeiras, muitas palmeiras.

 

Por que escravos fugiam? A fuga era a única maneira de recuperarem a sua humanidade – esta é a melhor resposta que conheço.”

 

Assim descreve Joel Rufino dos Santos, em seu livro Zumbi (ed. Moderna, 1985), o episódio que teria dado origem ao quilombo dos Palmares, na Serra da Barriga (que tem esse nome “talvez por parecer grávida a quem vem de Maceió, pelo Vale do Mundaú”), em Alagoas, onde é hoje o município de União dos Palmares.

 

 

 

 

 

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Século XVII

 

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Ocorrem os primeiros movimentos escravos de fuga e rebeldia. Citam-se (sem muito rigor) relatos sobre as campanhas contra o quilombo de Palmares, na Serra da Barriga (ao sul de Pernambuco, no atual Estado de Alagoas), em que se fazia referência ao modo muito peculiar de lutar dos negros aquilombados, nos confrontos corpo-a-corpo com os invasores brancos.

 

 

1630:

 

No topo da majestosa Serra da Barriga, eram já três aldeias muito bem organizadas. Os moradores as chamavam Angola Janga, que no idioma quimbundo significa “Angola Pequena”.

 

 

1640:

 

Início das invasões holandesas. Desorganização social do litoral brasileiro. Evasão dos escravos africanos para o interior do Brasil. Aculturação afro-indígena. Organização de centenas de quilombos. Surgem as expressões: “negros das capoeiras”, “negros capoeiras” e “capoeiras”.

 

 

1654:

 

Com a expulsão definitiva dos holandeses, o “grande inimigo externo”, todas as forças da sociedade colonial brasileira se voltaram contra o temível “inimigo de portas adentro”, os negros palmarinos. A partir de então, quase não houve um ano em que não partisse contra eles alguma expedição, vinda de Recife, Porto Calvo, Penedo ou Alagoas. Em geral, eram de iniciativa das autoridades, mas os recursos partiam dos senhores de engenho.

 

 

1655:

 

Em algum ponto dos Palmares, nasceu livre a criatura que chamamos Zumbi. Neste ano, um certo Brás da Rocha atacou Palmares e carregou, entre presas adultas, um recém-nascido. Entregou-o ao chefe de uma coluna, e este decidiu presenteá-lo ao cura de Porto Calvo. Padre Melo resolveu chamar o negrinho de Francisco. O menino cresceu junto ao padre, que lhe ensinou português, latim e religião. Numa noite de 1670, ao completar quinze anos, Francisco fugiu.

 

 

1670:

 

Zumbi, como agora se chamava o jovem Francisco, chega a Palmares, que, naquela época, eram já dezenas de povoados, cobrindo mais de seis mil quilômetros quadrados. Ganga Zumba, que significa “Grande Chefe”, reinava sobre todos eles.

 

 

1672:

 

Zumbi assume o posto de chefe da aldeia mais próxima de Porto Calvo.

 

 

1677:

 

O comando geral do exército negro cabia já a Zumbi, promovido de simples chefe de aldeia, após uma série de derrotas humilhantes de Ganga Zumba diante dos soldados de Fernão Carrilho.

 

 

1678:

 

Ganga Zumba entra em Recife para ratificar um acordo de paz com o governo. Zumbi, acompanhado dos chefes de mocambo descontentes, marchou contra a aldeia de Macaco, a capital de Palmares, onde se encontrava Ganga Zumba. Este fugiu, com pouco mais de trezentos fiéis, para Cucaú, no sul de Pernambuco, onde o governo colonial lhe reservara terras para viver e cultivar. Entretanto, a paz firmada entre Ganga Zumba e o governador D. Pedro de Almeida não durou dois anos.

 

 

1680:

 

Ganga Zumba morre envenenado por adeptos de Zumbi que se infiltraram no Cucaú. O governador de Pernambuco socorreu-o tarde demais, apenas a tempo de executar sumariamente os conspiradores João Mulato, Canhongo e Gaspar. Os sobreviventes da triste experiência da secessão de Palmares foram reescravizados. Durante os quinze anos seguintes, travou-se a guerra total na Zona da Mata, entre Zumbi e o mundo dos senhores de engenho. Cada golpe provocava outro, do lado contrário.

 

 

1687:

 

Neste ano, Zumbi fartou-se de derrotar tropas colonialistas, regulares ou não. Invadiu São Miguel, Penedo e Alagoas. Humilhado, o mundo do açúcar resolveu então contratar Domingos Jorge Velho, o caçador de índios, para lutar contra os quilombos.

 

 

1693:

 

Foi um ano terrível: com a queda absoluta do preço do açúcar, o ouro da colônia desapareceu quase que completamente, e a inflação explodiu. A seca e a fome, que já penalizavam o sertão, invadiram as cidades. A plebe, os pobres-diabos que viviam imprensados entre a grande fazenda e o governo (únicas fontes de trabalho), ficaram a pão e água. A raiva e o desespero tomaram conta das ruas do Recife. O governo colonial, preparando-se para uma cruzada definitiva contra o Estado quilombola, explorou então a frustração e a inveja da plebe urbana maltrapilha e faminta: prometeu mundos e fundos a quem participasse da expedição contra os quilombos; esvaziou os presídios, indultando os fora-da-lei; convocou militares vadios da Bahia, da Paraíba e do Rio Grande do Norte. A todos, a propaganda de guerra fez crer que a origem dos males brasileiros era a pátria dos negros.

 

 

1694:

 

Em janeiro, uma tropa de nove mil homens se pôs lentamente em marcha, sob o comando de Domingos Jorge Velho, em direção à serra da Barriga. Só na guerra da independência, 130 anos mais tarde, é que se viu um exército maior.

 

Várias tentativas foram feitas pelos invasores para destruir a fortaleza de Palmares, todas elas fracassadas, até que, na madrugada de 6 de fevereiro, conseguiram finalmente romper a paliçada a golpes de canhão e penetrarem o reduto dos palmarinos. Em sua fúria, a multidão de índios, mamelucos e soldados não deixou nada de pé ou inteiro.

 

Na beira do abismo, do lado ocidental da fortificação, restou uma passagem que o inimigo não teve tempo de fechar. Por ali saiu um grupo grande de guerreiros, dispostos a recomeçarem a guerra depois, quando se recompusessem. Quando passavam os últimos, rolaram pedras, e os mamelucos abriram fogo sobre eles. Na confusão que se seguiu, perto de duzentos guerreiros palmarinos despencaram no abismo.

 

Por muito tempo, acreditou-se que Zumbi, num impressionante gesto de orgulho, precipitara-se do alto da serra. Até recentemente, essa era a lenda. “Por que se acreditou tanto tempo nessa mentira? (…) Uma coisa é certa: a legenda do herói étnico que prefere a morte ao cativeiro fascina nossas mentes, charme indiscutível do ‘último dos moicanos’.”

 

Zumbi foi um dos últimos a sair, postado na retaguarda da coluna de guerrilheiros que deixou Palmares na madrugada de 6 de fevereiro de 1694. Escapou com vida. Depois, dividiu seus homens (cerca de mil) em bandos, e voltou à guerrilha.

 

 

1695:

 

Zumbi é morto em uma emboscada. O chefe de um de seus bandos, Antônio Soares, fora emboscado e preso, passando a cooperar com as forças coloniais em troca da vida e da liberdade.

 

“Zumbi confiava em Soares, e quando este lhe meteu a faca na barriga se preparava para um abraço. Seus olhos devem ter brilhado, então, de estupor e desalento. Seis guerrilheiros apenas estavam com ele naquele momento – cinco foram mortos imediatamente pela fuzilaria que irrompeu dos matos em volta. Zumbi, sozinho, matou um e feriu vários. Foi isso nas brenhas da serra Dois Irmãos, por volta de cinco horas da manhã de 20 de novembro de 1695.”

 

 

1696:

 

São descobertos os primeiros veios auríferos. Começa no Brasil a atividade da mineração.

 

 

 

 

 

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Século XVIII

 

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1702:

 

Começa no Brasil a atividade cafeeira, com a plantação das primeiras mudas de café por Palheta no Rio de Janeiro, no vale do Paraíba, dirigindo-se daí para São Paulo. No século XVIII, além do açúcar e da recém-implantação da cafeicultura e da mineração, começa efetivamente, com o crescimento das cidades, a vida urbana, surgindo então um outro tipo de escravidão: o escravo doméstico. A partir daí, a alforria começa a ser amplamente disseminada. A presença do negro, sua contribuição para a civilização brasileira, torna-se marcante, não só nas senzalas das plantações ou na mineração, mas também nas cidades, no comércio, nos mercados e nas praças públicas.

 

 

1712:

 

Pela primeira vez é registrado o vocábulo capoeira, no Vocabulário Português e Latino, de Rafael Bluteau, mas os significados do termo não se referem à luta.

 

Não há praticamente registros sobre a capoeira no século XVIII. É comum imaginar-se a capoeira nascendo e crescendo no ambiente rural, mas talvez tenha sido nas cidades, onde circulava livremente um grande número de libertos e “negros de ganho” (escravos que por conta própria exerciam alguma atividade e que ao fim do dia tinham de entregar uma quantia prefixada a seu proprietário), que esse processo de crescimento e transformação foi mais expressivo.

 

 

1770:

 

A mais antiga referência de capoeira enquanto forma de luta. “Segundo os melhores cronistas, data a capoeiragem é de 1770, quando para cá andou o Vice-Rei Marquês do Lavradio. Dizem eles também que o primeiro capoeira foi um tenente chamado João Moreira, homem rixento, motivo porque o povo o apelidava de ‘amotinado’. Viam os negros escravos como o ‘amotinado’ se defendia quando eram atacados por quatro ou cinco homens, e aprenderam seus movimentos, aperfeiçando-os e desdobrando-os em outros e dando a cada um seu próprio nome”[Edmundo 1951].

 

 

1789 : (25 de Abril de…) Primeira menção da capoeira em registros policias, na prisão de Adão, pardo, escravo, acusado de ser “capoeira [Nireu Cavalcanti, “O Capoeira”, Jornal do Brasil, 15 de novembro de 1999, citando do códice 24, Tribunal da Relação, livro 10, Arquivo Nacional, Rio de Janeiro].

 

 

 

 

 

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Século XIX

 

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1809:

 

Um ano após a chegada de D. João VI, criou-se a Secretaria de Polícia e foi organizada a Guarda Real de Polícia, sendo nomeado para sua chefia o major Nunes Vidigal, perseguidor implacável dos candomblés, das rodas de samba e especialmente dos capoeiras, “para quem reservava um tratamento especial, uma espécie de surras e torturas a que chamava de Ceia dos Camarões”. O major Vidigal foi descrito como “um homem alto, gordo, do calibre de um granadeiro, moleirão, de fala abemolada, mas um capoeira habilidoso, de um sangue-frio e de uma agilidade a toda prova, respeitado pelos mais temíveis capangas de sua época. Jogava maravilhosamente o pau, a faca, o murro e a navalha, sendo que nos golpes de cabeça e de pés era um todo inexcedível”.

 

 

1813:

 

Moraes, na segunda e última edição que deu em vida de sua obra, Diccionario da Língua Portugueza, inclui também o vocábulo capoeira. Após isto, o termo entrou no terreno da polêmica e da investigação etimológica, envolvendo nomes como os de José de Alencar, Beaurepaire Rohan e Macedo Soares.

 

 

1821:

 

Em carta dirigida ao ministro da Guerra, a Comissão Militar do Rio de Janeiro reclamava dos “negros capoeiras, presos pelas escolas militares, em desordens”, e reconhecia “a necessidade urgente de serem eles castigados pública e peremptoriamente…”.

 

 

1821:

 

>>> Carta da Comissão Militar do Rio de Janeiro enviada para Carlos Frederico de Paula, Ministro da Guerra, requisitando o retorno dos castigos aos capoeiristas.

 

>>> Decisão de 31 de outubro: determinou sobre a execução de castigos corporais em praças públicas a todos os negros chamados capoeiras.

 

>>> Decisão de 5 de novembro: determinou providências que deveriam ser tomadas contra os negros capoeiras na cidade do Rio de Janeiro.

 

 

1822:

 

>>> Decisão de 6 de janeiro: mandava castigar com açoites os escravos capoeiras presos em flagrante delito.

 

 

1824:

 

>>> Decisão de 28 de maio: dava providências sobre os negros denominados capoeiras.

 

>>> Decisão de 14 de agosto: mandava empregar nas obras do dique os negros capoeiras presos em desordem, cessando as penas de açoites.

 

>>> Decisão de 13 de setembro: declara que a portaria de número 30 do mês de agosto compreende somente escravos capoeiras.

 

>>> Decisão de 9 de outubro: declara que os escravos presos por capoeiras devem sofrer, além da pena de três meses de trabalho, o castigo de duzentos açoites.

 

 

1826:

 

O francês Debret retratou o Tocador de berimbau.

 

 

1826:

 

No dia 17 do corrente fugiu um escravo por nome Manuel, da nação Cabinda, estatura ordinária, rosto meio redondo, beiços grossos, olhos pequenos, bastante asibichado de cor, com tornozelos grossos, e com cicatrizes nas pernas de chagas. Costuma andar pela rua da Vala com outros capoeirando; quem o apanhar e levar à rua Direita 16, será bem recompensado.

 

(Diário do Rio de Janeiro 24 fevereiro 1826 )

 

 

FONTE: “OS CAPOEIRAS: REPRESENTAÇÕES NA IMPRENSA E NA INTELECTUALIDADE DO SÉCULO XIX” ( http://www.unirio.br/morpheusonline/numero07-2005/samantha.htm )

 

 

1828:

 

Vez por outra, os capoeiras, freqüentemente chamados de desordeiros, assumiam o papel de heróis, como aconteceu no caso da revolta dos batalhões mercenários (irlandeses e alemães), que abandonaram seus quartéis (no Campo de Santana, São Cristóvão e Praia Vermelha) e promoveram uma carnificina, matando e saqueando. Conta J. M. Pereira que os “sublevados foram atacados por magotes de pretos denominados capoeiras, travando com eles combates mortais

 

 

1830:

 

O alemão Rugendas, no livro Voyage Pittoresque et Historique dans le Brésil, retrata pela primeira vez o jogo de capoeira, em sua gravura Jogar capoeira ou Danse de la guerre.

 

“Jogar Capoeira ou Danse de Guerre”, quadro de Rugendas, a mais antiga reprodução gráfica do jogo da Capoeira.

 

Eis as palavras de Rugendas: “Os negros têm ainda um outro folguedo guerreiro, muito mais violento, a capoeira: dois campeões se precipitam um contra o outro, procurando dar com a cabeça no peito do adversário que desejam derrubar. Evita-se o ataque com saltos de lado e paradas igualmente hábeis; mas, lançando-se um contra o outro mais ou menos como bodes, acontece-lhes chocarem fortemente cabeça contra cabeça, o que faz com que a brincadeira não raro degenere em briga e que as facas entrem em jogo, ensangüentando-a.”

 

 

1831:

 

Decisão de 27 de julho: manda que a junta policial proponha medidas para a captura e punição dos capoeiras e malfeitores.

 

 

1832

 

Postura de 17 de novembro: proibia o Jogo da Capoeira: “…trazem oculto em um pequeno pau escondido entre a manga da jaqueta ou perna da calça uma espécie de punhal…”…”tomam providências contra todo e qualquer ajuntamento junto às fontes, onde provocavam arruaças e brigas; próximo a Igreja do Rosário, no Largo da Misericórdia, onde à noite as mulheres de reuniam…”.

 

 

1834:

 

>>> Decisão de 17 de abril: solicita providências a respeito dos operários do arsenal de marinha que se tornarem suspeitos de andar armados (fez referência a uma acusação de assassinato feita contra um negro, e mencionou que já haviam sido dadas ordens ao chefe de polí­cia sobre os capoeiras).

 

>>> Decisão de 17 de abril: dá providências a respeito dos pretos que depois do anoitecer forem encontrados com armas ou em desordens.

 

>>> Postura de 13 de dezembro: dá mais providências contra os capoeiras.

 

 

1835: Pela primeira vez é retratado o jogo de capoeira pelo alemão Johann Moritz Rugendas no livro Voyage Pittoresque dans le Brésil com as gravuras “JOGAR CAPOEIRA ou Danse de la guerre” e “SAN SALVADOR”.

 

 

1850:

 

Data da abolição do tráfico negreiro, com a publicação da Lei Eusébio de Queirós.

 

 

1872:

 

“Anteontem divertia-se o menor Antônio Soares de Araújo em exercícios acrobáticos de agilidade, que o vulgo chama de capoeiragem. O campo de exercícios era o largo da Sé, onde o rondante, não apreciando aquela cena, levou Antônio para a Primeira estação da Guarda Urbana. ”

 

(Diário do Rio de Janeiro, 05 março 1872.)

 

FONTE: “OS CAPOEIRAS: REPRESENTAÇÕES NA IMPRENSA E NA INTELECTUALIDADE DO SÉCULO XIX” ( http://www.unirio.br/morpheusonline/numero07-2005/samantha.htm )

 

 

1872:

 

“Parece averiguado que o Largo da Sé é o campo escolhido para os recrutas da arte. Ontem às duas horas da tarde José Leandro Franklin, veterano experimentado e o noviço Albano, aquele ensinando, este aprendendo as artes e agilidades da capoeiragem, foram surpreendidos nos seus estudos pelos guardas urbanos, que mudaram-lhe o curso para o xadrez da polícia. À preleção de Franklin assistiam muitos colegas, e talvez aspirantes, mas estes infelizmente evadiram-se”

 

(Jornal do Comércio. 11 março 1872)

 

FONTE: “OS CAPOEIRAS: REPRESENTAÇÕES NA IMPRENSA E NA INTELECTUALIDADE DO SÉCULO XIX” ( http://www.unirio.br/morpheusonline/numero07-2005/samantha.htm )

 

 

1874:

 

Uma malta de capoeiras da qual faziam parte Florentino, escravo de Manuel Joaquim Alves da Rocha, Zeferino, escravo, Luís José da Silva. Antônio Joaquim de Azevedo, e Maximiano, escravo de Antônio Correia de Sá Lobo, chegando na rua dos Ourives, esquina de São José, encontrou-se com outra com quem andava de rixa, travando-se desde logo uma luta desesperada, que obrigou os pacíficos transeuntes a fugir e algumas lojas a fechar. No conflito logo gravemente ferido e morreu pouco depois o escravo Oscar do Dr. Carlos Frederico Taylor, afamado capoeira da Glória. Ficaram feridos também e acham-se em perigo de vida Henrique da Conceição, escravo do Dr. César Farani, e Raimundo, escravo de Manuel Joaquim Alves da Rocha, com confeitaria no Largo do Capim

 

(Diário do Rio de Janeiro 9 março 1874)

 

 

FONTE: “OS CAPOEIRAS: REPRESENTAÇÕES NA IMPRENSA E NA INTELECTUALIDADE DO SÉCULO XIX” ( http://www.unirio.br/morpheusonline/numero07-2005/samantha.htm )

 

 

1878:

 

Ordem e desordem

 

AJUNTAMENTOS PERIGOSOS. Já por vezes temos chamado a atenção das autoridades sobre a venda da rua São Bento 53, por causa dos capoeiras, que constantemente ali se ajuntam, provocando desordens . Ainda ontem a patrulha que lá rondava intimou o caixeiro que não consentisse ali tantos negros e tanta algazarra .

 

(Jornal do Comércio 28 janeiro,1878 ) FONTE: “OS CAPOEIRAS: REPRESENTAÇÕES NA IMPRENSA E NA INTELECTUALIDADE DO SÉCULO XIX” ( http://www.unirio.br/morpheusonline/numero07-2005/samantha.htm )

 

 

1878:

 

Às nove horas da noite de anteontem, por ocasião de efetuar-se a prisão de alguns capoeiras no Campo da Aclamação, esquina da rua são Lourenço, dois praças de polícia, e três do Segundo regimento de Artilharia se opuseram à prisão dos malvados. Travou-se então grande luta entre urbanos e os ditos soldados, que queriam à força tomar um preso pelo fato de ter sido do corpo de polícia.

 

(Jornal do Comércio 29 janeiro 1878 )

 

FONTE: “OS CAPOEIRAS: REPRESENTAÇÕES NA IMPRENSA E NA INTELECTUALIDADE DO SÉCULO XIX” ( http://www.unirio.br/morpheusonline/numero07-2005/samantha.htm )

 

 

1880:

 

Surgem várias sociedades antiescravistas, unificadas em 1883 pela liderança nacional da Confederação Abolicionista. Algumas sociedades, como a dos Caifazes de Antônio Bento, propunham-se a realizar ações violentas: surrar capitães-do-mato, promover fugas das fazendas, criar quilombos. Os argumentos dos abolicionistas eram variados e incontestáveis, deixando bem claro que a escravidão era um entrave ao desenvolvimento do país, pois impedia o crescimento do mercado, a evolução das técnicas, corrompia o trabalho, a moral e a família.

 

 

1886:

 

Plácido de Abreu Morais publica o romance Os Capoeiras, que focaliza os rituais inerentes à capoeiragem no Rio de Janeiro. No preâmbulo do romance, o autor transcreve um vocabulário da gíria que vigorava àquele tempo. Em nosso Dicionário da Capoeira, incluímos este vocabulário.

 

 

1888:

 

Abolição da escravatura. Ex-escravos capoeiristas, não encontrando lugar na sociedade, caíram na marginalidade, levando consigo a capoeira. Na verdade, o período de marginalidade da capoeira começou muito antes, com a nomeação em 1809 do major Vidigal para a Guarda Real de Polícia, e paralelamente aos primeiros decretos (1814) que proibiam de um modo geral as manifestações negras.

 

Instituída a Guarda Negra, arregimentada secretamente pelo Visconde de Ouro Preto, composta quase toda de capoeiras ou navalhistas e caceteiros, ao soldo do governo.

 

 

1888:

 

>>> 13 de Maio – A Princesa Isabel decreta a Lei Áurea abolindo a escravatura no Brasil.

 

>>> Surge o primeiro livro sobre a Capoeira: o romance “Os Capoeiras”, de Plácido de Abreu, onde aparece a primeira nomenclatura de movimentos.

 

 

1889:

 

>>> Deportação dos capoeiras considerados criminosos para o Arquipélago de Fernando de Noronha.

 

>>> Nasce a proposta da Ginástica Nacional, como instrumento de Educação Fí­sica, a partir do reaproveitamento dos movimentos da Capoeira. Esta forma desportiva foi liberada pela polí­cia.

 

 

1889:

 

Proclamação da República, a 15 de novembro.

 

 

1890:

 

Entra em vigor o Código Penal da República, que coloca a capoeira na ilegalidade. Doravante, “Fazer nas ruas e praças públicas exercícios de agilidade e destreza corporal conhecida pela denominação de capoeiragem” acarretava pena de reclusão de dois a seis meses, constituindo circunstância agravante pertencer a alguma malta ou bando; “aos chefes ou cabeças”, a pena seria imposta em dobro. Os reincidentes poderiam ter pena de até três anos; se fosse estrangeiro o capoeira, seria deportado após cumprir pena.

 

 

1890: >>> Decreto 847. Introdução da Capoeira no Código Penal da República, no Capí­tulo XIII “Dos Vadios e Capoeiras” em seus artigos 402, 403 e 404.

 

>>> Continuidade ao processo de prisão e deportação dos capoeiristas criminosos para o Presí­dio de Fernando de Noronha e para a Colônia Correcional de Dois Rios na Ilha Grande.

 

>>> Apesar dos capoeristas terem um papel heróico na Revolta dos Mercenários e na Guerra do Paraguai, o Governo Republicano instaurado em 1889 continuou a política de repressão à Capoeira do período Imperal, e em 1890 editou um decreto criminalizando a prática da Capoeira.

 

 

1890:

 

“Em 11 de outubro de 1890, o novo Código penal da República realizava o que a Monarquia não tinha conseguido em quase cinqüenta anos de regime: transformar a capoeira de delito ou contravenção em crime”. (SOARES, 1994, p.301).

 

Parecia que o novo regime estava mesmo empenhado em apagar a capoeira do cenário brasileiro. Na década de 1890 essa luta foi intensificada por Sampaio Ferraz, primeiro chefe de Polícia do Distrito Federal.

 

“De novembro de 1889 a dezembro de 1890, a Casa de Detenção registra no mínimo a prisão de 297 capoeiras – no mínimo, porque os registros de janeiro a março de 1890 desapareceram” (SOARES, 1994, p.127).”

 

(SOARES, Carlos Eugênio Líbano. A negregada Instituição : os capoeiras no Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Secretaria Municipal de cultura. Departamento Geral de Documentação e Informação Cultural, Divisão de Editoração, 1994. )

 

FONTE: “OS CAPOEIRAS: REPRESENTAÇÕES NA IMPRENSA E NA INTELECTUALIDADE DO SÉCULO XIX” ( http://www.unirio.br/morpheusonline/numero07-2005/samantha.htm )

 

 

 

 

1897:

 

O general Couto de Magalhães, ilustre etnógrafo brasileiro, diz, referindo-se à capoeira: “este modo de lutar é também aborígene, e, longe de ser perseguido, como é, devia ser dominado, regularizado em nossas escolas militares, porque um bom capoeira é um homem que equivale a dez homens … Somos, não europeus ou africanos, e sim americanos, pelo sangue, inteligência, moralidade, língua, superstições, alimento, dança e lutas físicas”.

 

 

 

 

 

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Século XX

 

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1901:

 

Alberto Bessa, em A Gíria Portuguesa, define a capoeira como “jogo de mãos, pés e cabeça, praticado por vadios de baixa esfera (gatunos)”.

 

 

1904:

 

Luta do capoeirista Cirí­aco, contra o lutador de Jiu-jitsu Sada Miako. Este evento ocorreu através de alvará autorizado pela polí­cia, dentro do contexto da Luta Brasileira.

 

 

1907:

 

Edição do livreto apócrifo: Guia do Capoeira ou Gymnástica Brasileira. Nele as iniciais “O.D.C.” que significam: ofereço, dedico e consagro.

 

 

1910:

 

Revolta da Chibata, motim negro ocorrido em quatro navios, na Baía de Guanabara, Rio de Janeiro, contra o suplício e a tortura ainda existentes na Armada, vestígios da mentalidade oligárquica escravista.

 

Em Salvador, desde a década de 1910, ocorre a criação de “escolas de capoeira”, evidentemente clandestinas. No Rio, na mesma época, os capoeiristas cariocas também possuíam espaços reservados ao treinamentos da luta, alguns deles freqüentados inclusive pela fina-flor da elite, segundo o testemunho de Inezil Penna Marinho: “Aqui no Rio, Sinhozinho mantém uma Academia no Ipanema, destinada aos moços grã-finos que desejam ter algum motivo para se tornar valentes”.

 

 

1912:

 

Chega a “hora final” para as maltas do Recife, coincidindo com o nascimento do frevo; o passo, que é a movimentação do frevo, é filho da capoeira; como nos conta Edison Carneiro (Cadernos de Folclore, 1971), “a hora final chegou para as maltas do Recife mais ou menos em 1912, coincidindo com o nascimento do frevo, legado da capoeira (melhor diria ‘o passo’, que é a dança; o frevo é a música que o acompanha). As bandas rivais do Quarto (4o. Batalhão) e da Espanha (Guarda Nacional) desfilavam no carnaval pernambucano protegidas pela agilidade, pela valentia, pelos cacetes e pelas facas dos façanhudos capoeiras que aos saracoteios desafiavam os inimigos: ‘Cresceu, caiu, partiu, morreu!’ A polícia foi acabando paulatinamente com os moleques de banda de música e com seus líderes, Nicolau do Poço, João de Totó, Jovino dos Coelhos, até neutralizar o maior deles, Nascimento Grande”.

 

 

10 Jun Entre 1920 e 1927:

 

Sob a administração do temido delegado de polícia Pedro de Azevedo Gordilho, lembrado pela memória popular da capoeira e do candomblé baianos como “Pedrito”, intensificou-se a perseguição aos capoeiras na Bahia. Além do toque de berimbau chamado Cavalaria que, ao simular o tropel dos cavalos, denunciava a aproximação do conhecido Esquadrão de Cavalaria da polícia, a memória dessa perseguição está presente ainda hoje na seguinte cantiga, coletada por Waldeloir Rego:

 

“Toca o pandeiro, Sacuda o caxixi Anda depressa Qui Pedrito Evém aí”

 

As primeiras décadas do século XX marcam o ápice da perseguição policial movida contra os capoeiristas da Bahia. Quando Manoel dos Reis Machado (o mestre Bimba) começou a aprender capoeira, na Estrada das Boiadas, bairro da Liberdade, em Salvador, a capoeira ainda enfrentava acirrada perseguição, conforme contava o próprio Bimba: “Naquele tempo, capoeira era coisa para carroceiro, trapicheiro, estivador e malandros. Eu era estivador, mas fui um pouco de tudo. A polícia perseguia um capoeirista como se persegue um cão danado. Imagine só, que um dos castigos que davam a capoeiristas que fossem presos brigando era amarrar um dos punhos no rabo de um cavalo e outro em cavalo paralelo. Os dois cavalos eram soltos e postos a correr em disparada até o quartel. Comentavam até, por brincadeira, que era melhor brigar perto do quartel, pois houve muitos casos de morte. O indivíduo não agüentava ser arrastado em velocidade pelo chão e morria antes de chegar ao seu destino: o quartel de polícia”.

 

Foi nesta época que ocorreu o grande salto na história da capoeira. Insatisfeito com o preconceito e a marginalização que a envolviam, mestre Bimba decidiu criar uma variação da capoeira, e a chamou de Luta Regional Baiana.

 

Preocupado com a eficiência combativa da nossa arte-luta que, segundo ele, vinha sendo dissipada e perdida pela ação do turismo (os capoeiristas envolviam-se muito àquela época com apresentações para turistas, e a capoeira foi se transformando em show de acrobacias e mandingagens, afastando-se de seu sentido original), Mestre Bimba, preservando a movimentação original e os antigos rituais, introduziu modificações baseadas em golpes de jiu-jitsu, da luta greco-romana, do boxe e principalmente do batuque (luta de origem africana muito praticada na Bahia). Como conta o Ten. Esdras Magalhães dos Santos (Mestre Damião), discípulo de Bimba e precursor da capoeira paulista: “Na criação da Luta Regional houve a colaboração de Cisnando Lima, cearense ‘arretado’, profundo conhecedor de jiu-jitsu, boxe, luta greco-romana (…). Cisnando transmitiu a Bimba os seus conhecimentos, aos quais o Mestre associou golpes do batuque para elaboração da nova modalidade esportiva. Decânio (Mestre Decânio, o mais idoso aluno vivo do Mestre Bimba) acentua, no entanto, que apesar de Cisnando apresentar os golpes e contragolpes daquelas lutas, a decisão final da conveniência ou não da inclusão dos mesmos na Luta Regional Baiana sempre foi do Mestre.” (Esdras Magalhães dos Santos – Mestre Damião -, Conversando sobre Capoeira…, ed. do autor).

 

As inovações de Mestre Bimba, ainda que tenham atingido os objetivos a que se propunham, isto é, conferir maior eficiência combativa à nossa arte-luta, e promover o seu reconhecimento social, geraram grande polêmica no seio da comunidade capoeirística; muitos encararam-nas injustamente como uma descaracterização das tradições da capoeira. O debate dura até hoje, exibindo posições variadas. Parece-nos que a tensão gerada entre as duas “modalidades” de capoeira é salutar: devemos, sim, preservar sempre as tradições, sem no entanto nos fecharmos às inovações que representem real evolução.

 

 

1928:

 

Surge no Rio de Janeiro o primeiro Código Desportivo de Capoeira sobre o nome de Gymnástica Nacional (Capoeiragem) Methodizada e Regrada. Este trabalho, de autoria de Aníbal Burlamaqui (Zuma), trouxe uma nomenclatura ilustrada de golpes e contragolpes, área de competição, regulamento de competição, critérios de formação de árbitros, fundamentos históricos, uniformes e outras informações.

 

 

1932:

 

Mestre Bimba funda, em Salvador, no Engenho Velho de Brotas, a primeira academia de capoeira registrada oficialmente, com o nome de “Centro de Cultura Física e Capoeira Regional da Bahia”.

 

 

1933:

 

Fundação em 5 de novembro, por intervenção de Aníbal Burlamaqui do Departamento de Luta Brasileira (Capoeiragem) da Federação Carioca de Boxe.

 

 

1936:

 

>>> Em 13 de março o jornal a Gazeta da Bahia trouxe um depoimento de Manuel dos Reis Machado (Mestre Bimba) afirmando que “a polí­cia regulamentará estas exibiçoes de capoeiras de acordo com a obra de Aníbal Burlamaqui (Zuma) editada em 1928”.

 

>>> Fundação do Departamento de Luta Brasileira (Capoeiragem) da Federação Paulista de Pugilismo, em 4 de novembro, por influência da Aníbal Burlamaqui.

 

 

1937:

 

Mestre Bimba (Manuel dos Reis Machado, 1900-1974), um dos “heróis culturais” da capoeira brasileira, consegue licença oficial que o autoriza a ensiná-la no seu “Centro de Cultura Física e Capoeira Regional”, num período em que o Brasil caminhava para o pleno regime de força e que as leis penais consideravam os capoeiristas como delinqüentes perigosos. Qualificando o ensino de sua capoeira como ensino de educação física, a então Secretaria da Educação, Saúde e Assistência Pública expediu certificado de registro à academia de capoeira de Mestre Bimba, a primeira do gênero, a 9 de julho de 1937. A partir daí, a capoeira sairia das ruas e passaria a ser praticada no interior das “academias”, como ficariam conhecidas as escolas de capoeira.

 

 

1939:

 

Mestre Bimba começou a ensinar Capoeira no quartel do Centro de Preparação de Oficiais da Reserva (CPOR) de Salvador, no Forte do Barbalho, onde trabalhou por três anos.

 

 

1940:

 

Decreto 2848. Instituiu o novo Código Penal Brasileiro. No mesmo não é citada a Capoeira. A partir desta data o uso da palavra “Capoeira” foi liberado.

 

 

1941:

 

Decreto 3.199 assinado pelo presidente Getúlio Vargas, o qual estabeleceu as bases da organização dos desportos no Brasil. Através do mesmo foi constituí­da a Confederção Brasileira de Pugilismo que já na fundação teve o Departamento Nacional de Luta Brasileira (Capoeiragem), que foi o embrião da Confederação Brasileira de Capoeira. Este foi o primeiro reconhecimento desportivo oficial da modalidade.

 

 

1941:

 

Mestre Pastinha (Vicente Ferreira Pastinha) funda também sua academia, o “Centro Esportivo de Capoeira Angola”, hoje localizada ao Largo do Pelourinho nº 19, e dirigida por Mestre Curió, seu discípulo. Naquele tempo, como ainda hoje, a capoeira era ensinada como nas outras academias de capoeira angola, isto é, por via oral, à excessão da academia de Mestre Bimba.

 

 

1945:

 

Dando prosseguimento ao Projeto da Ginástica Nacional, o Prof. Inezil Penna Marinho publica o livro: Subsí­dios para o Estudo da Metodologia do Treinamento da Capoeiragem. Esta obra também foi inspirada em Aníbal Burlamaqui.

 

 

1948:

 

No mês de dezembro, desembarcam em São Paulo os pioneiros da capoeira neste Estado, Esdras Magalhães dos Santos (Damião), Manoel Garrido Rodeiro (Garrido) e Fernando Rodrigues Perez (o respeitado Perez da capoeira baiana), formados e especializados pelo Mestre Bimba no Centro de Cultura Física e Luta Regional, do Maciel de Cima (em Salvador).

 

Vieram preparar a vinda do “Rei da Capoeira” à terra paulista, para mostrar aqui a luta genuína brasileira. Logo depois, ainda em dezembro, chegou a São Paulo o próprio Mestre Bimba, acompanhado de seus alunos Brasilino, Clarindo, Adib, Jurandir e Edevaldo, que se juntaram aos três primeiros. Ralf Zumbano intermediou os entendimentos com seu tio, o argentino (naturalizado brasileiro) Kid Jofre, pai do “Galo de Ouro”, Eder Jofre, este campeão mundial de boxe em duas categorias (dos galos e dos penas), para que os capoeiras começassem a treinar em sua academia de boxe.

 

Os “meninos de Bimba” fizeram duas apresentações em fevereiro e duas em março de 1949, disputando noitadas de vale-tudo com os melhores lutadores paulistas da modalidade: Duro, Menezes, Godofredo, Evaldo, Cabrera, Flávio, Canuto, Arapuã e Nagashima (jiu-jitsu). Em seguida, participaram de temporada no Rio de Janeiro, enfrentando lutadores locais em combates “pra valer”. As apresentações, tanto em São Paulo quanto no Rio de Janeiro, tiveram um sucesso estrondoso.

 

 

1949:

 

Mestre Bimba leva alguns alunos a São Paulo para competir com outras lutas. Na década de 1950, Mestre Bimba viajou vários estados apresentando a capoeira. Começa a expansão da capoeira baiana pelo território brasileiro

 

 

1950:

 

No segundo semestre, o atual Mestre Damião (Esdras Magalhães dos Santos) retornou à capital paulista, para fazer o curso de sargentos especialistas da Aeronáutica, no Campo de Marte. Durante dois anos (1950/51) ele deu aulas de capoeira para cerca de cinqüenta alunos, na academia de Kid Jofre. Os primeiros foram Renato Bacelar (advogado), Martinho Luthero dos Santos (professor, irmão de Damião) e seus amigos Walter Grossman, Hamilton e Waldemar.

 

 

1952: Fundação do Centro Esportivo Capoeira Angola, em Salvador, celebrizado por ter à rente o Mestre Vicente Ferreira Pastinha. Seu enfoque é eminentemente esportivo e civilizador da Capoeira.

 

 

1953:

 

O Conselho Nacional de Desportos expede a Resolução 071, estabelecendo critérios para a prática desportiva da Capoeira. Este foi o segundo reconhecimento desportivo oficial.

 

 

1953:

 

Mestre Bimba e seus alunos exibem-se, no Palácio do Governo, em Salvador, a convite do então governador da Bahia Juracy Magalhães, na presença do Presidente da República, Getúlio Vargas, que teria dito, na ocasião: “A Capoeira é o único esporte verdadeiramente nacional”. A partir daí, a capoeira passou a ser mais valorizada e a ter acesso a exibições em clubes, escolas, teatros, começando a ganhar apoio de políticos, intelectuais, artistas e do povo em geral. Porém, o capoeira, como indivíduo, continuou sendo vítima dos preconceitos da sociedade. O preconceito só começou a desaparecer a partir da década de 60, quando a capoeira começou a trilhar novos caminhos.

 

 

1955:

 

Realização da primeira apresentação de Capoeira pela televisão; apresentaram-se os dois irmãos – Esdras Magalhães dos Santos (Mestre Damião) e seu discípulo Martinho Luthero dos Santos, na TV Tupi (Canal 4), dos Diários Associados, em entrevista conduzida pelo jornalista José Carlos de Morais, conhecido como “Tico-Tico”.

 

 

1957:

 

A partir de maio, na mesma academia de Kid Jofre, o jornalista Augusto Mário Ferreira, recém-formado por Mestre Bimba (que lhe deu o apelido de Guga), deu continuidade ao curso iniciado por Mestre Damião, até 1959, auxiliado pelo professor Martinho Luthero dos Santos. Prepararam um grupo de quase vinte praticantes, que não chegaram à formatura em razão apenas da impossibilidade material de trazer o Mestre Bimba mais uma vez a São Paulo. O curso dissolveu-se.

 

No final da década de 50, José de Freitas, capoeirista de Alagoinhas/BA, chega à capital paulista, e começa um curso numa academia de lutas do bairro do Brás. Pouco tempo depois, um alfaiate carioca, auto-intitulado Mestre Valdemar Paulista (não confundir com o homônimo de Salvador), ou Valdemar Angoleiro, auxiliado por seu irmão, Durvaltércio Alves dos Santos (conhecido depois como Mestre Bolinha), abriu a primeira academia de fato, num casarão decadente da Rua Bela Cintra (hoje demolido).

 

Fuente: portalcapoeira.com

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